Endometriose: segunda patologia mais comum na ginecologia
- claurepires
- 19 de mar.
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Definição de Endometriose
A endometriose é definida como a presença de tecido endometrial ativo fora da cavidade uterina, podendo apresentar tanto epitélio quanto estroma endometrial em localizações ectópicas. Esse tecido ectópico responde aos estímulos hormonais, semelhante ao endométrio normal, o que pode levar a uma variedade de sintomas clínicos e complicações.
Epidemiologia da Endometriose
A endometriose é a segunda patologia mais comum na ginecologia, afetando até 50% das mulheres em idade reprodutiva (menacme). Aproximadamente 20% das pacientes inférteis submetidas a investigação laparoscópica apresentam endometriose, e 2-10% das pacientes submetidas a laparoscopia por outros motivos também apresentam a doença.
Sítios de acometimento da Endometriose
Os sítios mais frequentemente acometidos pela endometriose incluem:
- Ovários
- Fundo de saco de Douglas
- Ligamento útero-sacro
- Região vesico-uterina
- Tubas uterinas
- Serosa uterina
A endometriose pode também acometer outros órgãos fora da pelve, como o apêndice, cicatriz umbilical, pleura, entre outros.
Aparência da Endometriose
A aparência da endometriose pode variar ao longo do tempo:
- Forma ativa (vermelha): geralmente associada a sintomas, representando lesões mais recentes.
- Formas mais antigas: podem se apresentar como lesões azuladas, marrons ou pretas.
- Formas inativas (claras): indicam lesões cicatriciais ou menos ativas.
Fisiopatologia da Endometriose
A fisiopatologia da endometriose não é completamente elucidada, mas várias teorias foram propostas:
- Teoria metastática: Disseminação hematogênica ou linfática de células endometriais para locais ectópicos.
- Teoria canalicular: Sangramento retrógrado pelas tubas uterinas com implantação de células endometriais na cavidade abdominal.
- Teoria da metaplasia celômica: Metaplasia das células celômicas em células endometriais.
- Teoria da resposta imunológica: Deficiência na resposta imune que permite a sobrevivência e implantação de células endometriais fora do útero.
- Teoria iatrogênica: Implantação de células endometriais durante procedimentos cirúrgicos, como cesarianas.
Apresentação Clínica da Endometriose
A apresentação clínica da endometriose pode variar significativamente:
- Assintomática: Algumas pacientes podem não apresentar sintomas.
- Sintomas leves a graves:
- Dor pélvica crônica: Geralmente cíclica e relacionada ao ciclo menstrual.
- Dismenorreia: Dor menstrual intensa.
- Dispareunia: Dor durante a relação sexual.
- Infertilidade: Frequente em casos de endometriose profunda.
- Sintomas adicionais: Disúria, hematúria, disquezia, e hematoquezia, dependendo do local da endometriose.
Endometriose e Infertilidade
A endometriose está associada à infertilidade em 20-40% das pacientes, especialmente naquelas com endometriose profunda. Mecanismos incluem:
- Alteração da anatomia pélvica: Aderências pélvicas interferem na função reprodutiva.
- Diminuição da reserva ovariana: Associada a endometriomas e cirurgias.
- Eventos imunológicos: Elevação de citocinas inflamatórias e TNF-α no fluido peritoneal.
- Receptividade endometrial: Alterações na janela de implantação e resistência à progesterona.
Adenomiose
Adenomiose é a presença de endométrio no miométrio uterino. Os principais sinais e sintomas incluem dor pélvica, dismenorreia, hipermenorragia, e infertilidade. O diagnóstico é feito através de anamnese, exame físico, ultrassonografia, ressonância magnética, e videolaparoscopia.
Endometriose Peritoneal
Caracteriza-se por penetração superficial no peritônio, com profundidade inferior a 5 mm. É geralmente assintomática e diagnosticada incidentalmente durante cirurgias ou exames de imagem.
Endometriose Ovariana
Forma cistos endometrióticos (endometriomas) nos ovários. É um marcador importante de endometriose profunda e pode ser diagnosticada por ultrassonografia. Está frequentemente associada à infertilidade.
Endometriose Profunda
Penetração tecidual superior a 5 mm, frequentemente associada à formação de aderências. Diagnóstico geralmente realizado por ressonância magnética e ultrassonografia com preparo intestinal.
Diagnósticos diferenciais de Dor Pélvica
Condições que podem mimetizar os sintomas da endometriose incluem:
- Doença inflamatória pélvica
- Síndrome do cólon irritável
- Cistite intersticial
- Tumores ovarianos
- Doença diverticular
- Câncer de cólon
Tratamento da Endometriose
O tratamento é individualizado com base em fatores como idade, desejo de gravidez, gravidade dos sintomas, e impacto na qualidade de vida.
Tratamento Clínico
- AINEs
- Anticoncepcionais contínuos
- Progestágenos (acetato de medroxiprogesterona, dienogeste, Mirena)
- Danazol, gestrinona
- Agonistas de GnRH
- Inibidores da aromatase
Tratamento Cirúrgico
- Conservador: Videolaparoscopia para excisão, fulguração e ressecção de lesões.
- Definitivo: Histerectomia com ou sem anexectomia bilateral.
Pontos Importantes
- A endometriose é uma das principais causas de dor pélvica e infertilidade em mulheres em idade reprodutiva.
- A apresentação clínica é altamente variável e pode não correlacionar-se com a extensão da doença.
- O diagnóstico muitas vezes requer uma combinação de exame clínico, exames de imagem e, em casos selecionados, laparoscopia.
- O manejo deve ser individualizado, considerando a severidade dos sintomas e o desejo reprodutivo da paciente.
Referências
- Tratado de Ginecologia da FEBRASGO, 2019
- Speroff’s Clinical Gynecologic Endocrinology and Infertility, 2019