Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs)
- claurepires
- 19 de mar.
- 4 min de leitura

Introdução
As Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), também conhecidas como doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), são um grupo heterogêneo de condições causadas por diferentes agentes etiológicos, como bactérias, vírus e protozoários. Elas afetam diversos órgãos e sistemas e podem apresentar manifestações clínicas variadas. A correta identificação e tratamento são fundamentais para a saúde pública, especialmente para evitar complicações como infertilidade, câncer e transmissão vertical. Este capítulo aborda os principais aspectos diagnósticos, terapêuticos e preventivos das ISTs, com foco em sífilis, herpes genital, cancro mole, linfogranuloma venéreo e donovanose, conforme as diretrizes mais recentes do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Sífilis
Etiologia
A sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum, uma espiroqueta que provoca uma infecção sistêmica com fases distintas (primária, secundária, latente e terciária), dependendo do tempo de evolução e da resposta imunológica do hospedeiro.
Fases Clínicas
- Primária: Caracterizada pelo cancro duro, uma úlcera indolor com bordas endurecidas que surge após o período de incubação (10 a 90 dias).
- Secundária: Manifesta-se 2 a 6 meses após a fase primária, com lesões cutâneas características (roséola sifilítica) e sintomas sistêmicos, como febre e linfadenopatia.
- Latente: Caracteriza-se pela ausência de sintomas, podendo durar anos e evoluir para cura espontânea ou para a fase terciária.
- Terciária: Acometimento de órgãos vitais, especialmente do sistema cardiovascular (aortite, aneurisma) e sistema nervoso central (neurossífilis).
Neurossífilis
A neurossífilis pode ocorrer em qualquer fase da infecção, mas é mais comum na fase terciária. Os sintomas neurológicos incluem afasia, tabes dorsalis e alterações de comportamento.
Diagnóstico
O diagnóstico é baseado em testes sorológicos, como o VDRL e o FTA-ABS, além de exames específicos, como a bacterioscopia de campo escuro e imunofluorescência para detecção do Treponema pallidum.
Tratamento
O tratamento de primeira linha é com penicilina benzatina:
- Fase primária e secundária: 2,4 milhões de UI, dose única intramuscular.
- Fase latente: 2,4 milhões de UI intramuscular, 1 vez por semana durante 3 semanas.
- Neurossífilis: Penicilina cristalina 12 a 24 milhões de UI/dia, via endovenosa, por 14 dias.
Alternativas incluem doxiciclina e ceftriaxona, especialmente em casos de alergia à penicilina, com exceção de gestantes.
Reação de Jarisch-Herxheimer
A reação de Jarisch-Herxheimer é uma resposta inflamatória aguda, geralmente nas primeiras 24 horas após o início do tratamento da sífilis, caracterizada por febre, cefaleia e mialgia, causada pela liberação de endotoxinas do espiroqueta.
Acompanhamento
Pacientes com sífilis devem ser monitorados com testes não treponêmicos trimestrais no primeiro ano e semestrais no segundo ano para avaliar a resposta ao tratamento.
Herpes Genital
Etiologia
Causado pelos vírus Herpes Simplex (HSV) tipo 1 e 2, com o HSV-2 responsável pela maioria das infecções genitais.
Manifestações Clínicas
- Primoinfecção: Vesículas dolorosas agrupadas nos genitais, que evoluem para úlceras rasas. A infecção inicial é mais grave e prolongada que as recorrências.
- Recorrências: A infecção latente pode ser reativada por fatores como estresse ou imunossupressão.
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, podendo ser confirmado por PCR para detectar o DNA viral ou cultura viral.
Tratamento
Os antivirais usados incluem:
- Infecção primária: Aciclovir 400 mg, 3x/dia, por 7 a 10 dias.
- Recorrência: Aciclovir 400 mg, 3x/dia, por 3 a 5 dias.
- Profilaxia: Indicado em casos de recorrências frequentes, com doses diárias de antivirais para prevenir novos episódios.
Cancro Mole (Cancroide)
Etiologia
Causado pela bactéria Haemophilus ducreyi, o cancro mole provoca úlceras dolorosas nos genitais e pode facilitar a transmissão de HIV.
Manifestações Clínicas
Úlceras dolorosas, com fundo sujo e bordas irregulares. Frequentemente, há linfoadenomegalia inguinal dolorosa (bubão), que pode fistulizar.
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, confirmado por cultura de material coletado das lesões.
Tratamento
- Azitromicina 1 g, dose única via oral.
- Ceftriaxona 250 mg, dose única intramuscular.
Linfogranuloma Venéreo
Etiologia
Causado pela Chlamydia trachomatis (sorotipos L1, L2 e L3), o linfogranuloma venéreo tem predileção pelos linfonodos.
Manifestações Clínicas
Inicia com uma úlcera indolor que pode passar despercebida, seguida de linfoadenomegalia inguinal dolorosa, que pode evoluir para fístulas e cicatrizes.
Tratamento
- Doxiciclina 100 mg, 12/12h, por 21 dias.
- Azitromicina 1 g, semanal, por 3 semanas.
Donovanose
Etiologia
Causada pela bactéria Klebsiella granulomatis, a donovanose provoca úlceras indolores, de crescimento lento e com tendência a sangramento.
Tratamento
- Doxiciclina 100 mg, 12/12h, ou
- Sulfametoxazol-trimetoprim (160/800 mg), 12/12h, por no mínimo 3 semanas após o desaparecimento das lesões.
Pontos Importantes
- Sífilis: O diagnóstico precoce e tratamento com penicilina são essenciais para evitar complicações graves como neurossífilis.
- Herpes Genital: O uso de antivirais reduz a gravidade e frequência das recorrências.
- Cancro Mole: Úlceras dolorosas com bordas irregulares; tratamento com azitromicina ou ceftriaxona.
- Linfogranuloma Venéreo: Linfoadenomegalia dolorosa com fístulas; tratamento prolongado com doxiciclina.
- Donovanose: Úlceras indolores com aspecto de "bife vermelho"; tratadas com doxiciclina ou sulfametoxazol-trimetoprim.
Referências
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Brasília: 2020.
- World Health Organization (WHO). Sexually Transmitted Infections (STIs): Global Epidemiology and Treatment Guidelines. Geneva: WHO, 2023.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Sexually Transmitted Diseases Treatment Guidelines, 2021.