Pancreatite Crônica e Neoplasias do Pâncreas
- claurepires
- 19 de mar.
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Introdução
O pâncreas possui funções endócrinas e exócrinas fundamentais para a homeostase corporal. A Pancreatite Crônica (PC) e as Neoplasias Pancreáticas são condições associadas à inflamação crônica e a processos malignos que comprometem o parênquima pancreático. Este capítulo explora o diagnóstico, fisiopatologia, tratamento e prognóstico dessas condições.
Anatomia e Funções do Pâncreas
O pâncreas é responsável por funções endócrinas e exócrinas:
- Função endócrina: realizada pelas células das ilhotas de Langerhans, que incluem:
- Células beta: secretam insulina.
- Células alfa: produzem glucagon.
- Células PP: liberam peptídeo pancreático.
- Células D: produzem somatostatina.
- Função exócrina: realizada pelos ácinos pancreáticos, que produzem o suco pancreático. Este contém enzimas digestivas essenciais (tripsinogênio, amilase, lipase e protease), que auxiliam na digestão de proteínas, carboidratos e lipídeos.
Pancreatite Crônica
Epidemiologia
A pancreatite crônica afeta predominantemente homens, sendo que 70% dos casos estão relacionados ao consumo excessivo de álcool. Apenas 10% dos etilistas pesados desenvolvem a doença, sugerindo fatores predisponentes adicionais, como predisposição genética e fatores ambientais.
Etiologia e Fisiopatologia
A etiologia da pancreatite crônica pode ser memorizada pelo mnemônico TIGARO:
- Tóxico: álcool, hipercalcemia, hipertrigliceridemia.
- Idiopático: formas tropicais ou calcificantes.
- Genético: mutações em genes como PRSS1 e SPINK1, associadas à pancreatite hereditária.
- Autoimune: ativação de linfócitos contra o tecido pancreático.
- Recorrente: episódios repetidos de pancreatite aguda.
- Obstrutiva: estenoses, neoplasias ou pâncreas divisum.
A fisiopatologia da pancreatite crônica envolve inflamação contínua, que leva à fibrose interlobular e substituição do tecido acinar por tecido fibroso, com comprometimento do ducto pancreático.
Diagnóstico Precoce com Ecoendoscopia
A ecoendoscopia (EUS) é uma ferramenta importante no diagnóstico precoce da pancreatite crônica, especialmente nos estágios iniciais da doença, pois permite a observação detalhada do parênquima e ductos pancreáticos. Além disso, a elastografia por EUS tem sido explorada para medir a rigidez do pâncreas e diagnosticar a doença em estágios iniciais.
Quadro Clínico
A tríade clássica da pancreatite crônica inclui:
1. Dor abdominal: geralmente em epigástrio, irradiando para o dorso, com características de dor em "cinturão".
2. Insuficiência exócrina: caracterizada por esteatorreia (fezes gordurosas).
3. Insuficiência endócrina: com desenvolvimento de diabetes mellitus.
A dor é frequentemente exacerbada pela ingestão de alimentos gordurosos e álcool.
Diagnóstico
Os testes diagnósticos para pancreatite crônica incluem:
- Testes de função: glicemia de jejum, hemoglobina glicada, elastase fecal.
- Testes de imagem: tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM) e ecoendoscopia são recomendados para a visualização de alterações estruturais no pâncreas.
Testes Genéticos
Testes genéticos para mutações como PRSS1 e SPINK1 são recomendados em pacientes jovens com pancreatite crônica idiopática ou com histórico familiar de pancreatite. Isso permite a identificação de pacientes com pancreatite hereditária, que têm maior risco de desenvolver neoplasias pancreáticas.
Tratamento
O tratamento da pancreatite crônica inclui:
- Medidas gerais: cessação do consumo de álcool e tabagismo, além de orientações dietéticas, como redução de gorduras.
- Controle da dor: com analgésicos simples e opioides. Antidepressivos tricíclicos também podem ser usados como coanalgésicos para dor neuropática.
- Reposição enzimática pancreática: para melhorar a digestão e reduzir a dor causada pela pressão intraductal elevada.
Terapia Endoscópica e Cirúrgica
Nos casos de obstrução ductal ou complicações, a terapia endoscópica (litotripsia ou esfincterotomia) pode ser realizada. Casos refratários podem necessitar de intervenções cirúrgicas, como a pancreaticojejunostomia, que drena o ducto pancreático para o jejuno, ou a cirurgia de Whipple para ressecções pancreáticas.
Complicações
As principais complicações incluem:
- Pseudocistos pancreáticos: que podem comprimir estruturas adjacentes e requerem drenagem cirúrgica ou endoscópica.
- Obstrução duodenal ou biliar: causada pela fibrose ou pseudocistos, necessitando de descompressão cirúrgica.
- Neoplasia pancreática: a pancreatite crônica aumenta o risco de desenvolvimento de câncer pancreático.
Sarcopenia e Deficiência Nutricional
A insuficiência pancreática exócrina pode causar sarcopenia (perda de massa muscular), devido à má absorção de lipídeos e vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K), o que afeta significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
Neoplasias do Pâncreas
Epidemiologia
As neoplasias pancreáticas mais comuns são os adenocarcinomas ductais, responsáveis por altas taxas de mortalidade. Os principais fatores de risco incluem:
- Tabagismo: um fator de risco importante para o câncer de pâncreas.
- Histórico de pancreatite crônica: aumenta o risco de malignidade.
- Predisposição genética: mutações nos genes BRCA2 e PRSS1 estão associadas a um risco elevado de neoplasia pancreática.
Quadro Clínico
Os sintomas incluem:
- Icterícia: devido à obstrução do ducto biliar por tumores na cabeça do pâncreas.
- Perda de peso: presente em estágios avançados.
- Dor abdominal: que pode simular a dor da pancreatite crônica.
Diagnóstico
O diagnóstico das neoplasias pancreáticas é feito por exames de imagem, como tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM). A ecoendoscopia com biópsia é fundamental para o diagnóstico histológico.
Tratamento
O tratamento inclui:
- Cirurgia: como a cirurgia de Whipple, indicada para casos localizados.
- Quimioterapia: utilizada para tumores irressecáveis ou metastáticos.
- Terapia paliativa: para controle de sintomas em estágios avançados.
Prognóstico
O prognóstico das neoplasias pancreáticas é reservado, com baixa sobrevida em 5 anos. No entanto, a ressecção cirúrgica precoce oferece melhores chances de cura.
Pontos Importantes
- A pancreatite crônica é associada ao consumo excessivo de álcool em 70% dos casos.
- O uso de ecoendoscopia e testes genéticos são recomendados para diagnóstico precoce.
- A terapia de reposição enzimática e o controle da dor são pilares no manejo clínico.
- Pacientes com pancreatite crônica têm risco aumentado de desenvolver neoplasia pancreática.
Referências
- American College of Gastroenterology Clinical Guidelines on Chronic Pancreatitis, 2021.
- Pancreatic Cancer Action Network Clinical Updates, 2022.
- International Association of Pancreatology Guidelines, 2023.
- Consenso Brasileiro sobre Pancreatite Crônica, 2021.